
Tá difícil aceitar que é hora de mudar de planos. A gente analisa, vê que não dá mais e pára. Estanca. Dorme até tarde, enrola, e no dia seguinte decidimos de novo a mesma coisa.
O sonho acabou, e quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou. Veio essa música do Gil na cabeça. E a culpa junto. Acho que não dei o meu melhor, que não consegui deixar de pedir refri durante o almoço e pedir um copo de água depois. Não pensei em dividir banheiro num hotel de Berlin e também não pensamos em alugar um quarto ao invés de um apartamento em Barcelona. E desisti cedo demais de vender maquininhas do Banesto. Acho que minha barriga gastou demais, e que o Basquiat não foi uma escolha tão consciente como pareceu.
Sábado me ligaram daquela loja e me queriam pro emprego. Fiquei feliz, mesmo sabendo que o salário seria cerca de um sétimo (!) do que a gente gasta por mês em Barcelona. Mas ainda não foi dessa vez. Descobri que os trâmites pra solicitar uma permissão de trabalho pra estudante são bem mais complicados do que imaginei. O empregador teria que ligar, marcar uma entrevista, comparecer, levar mil documentos, esperar e esperar... porra, peraí, eu sou só mais uma na longa fila de espera que eles entrevistaram! Tudo bem, muito simpática, com muitas ganas de trabajar, pero... quem é que vai assumir essa responsa? Voltei pra casa sem o trabalho. Óbvio.
Não consigo entender o que está acontecendo. Tanta gente com trabalho na Espanha... e por que a gente não consegue nada? Ok, pra gente não ficar tão deprimido, vamos lembrar que o namorado de uma amiga, catalão (não, não é só espanhol, é catalão!), tá tentando arrumar uma tranqueira qualquer e não consegue. E uma amiga que trabalhava há anos num depósito finalmente conseguiu o visto, e justamente agora foi despedida (“é a crise!”)... Mas como é que tanta gente consegue se virar e a gente não?
Pela primeira vez uma viagem por vários países da Europa não me seduz tanto. Claro, vai ser uma delícia conhecer mil países, falar várias línguas, vamos voltar cheios de informações e novidades... mas e o que vou responder quando me perguntarem: profissão?
O Viti perguntou qual o meu maior sonho, meu maior desejo. Encontrar uma profissão, não tenho dúvida. Mais do que fazer um curso de literatura, participar de um grupo de leitura, conhecer vários países, falar várias línguas, coisas que sempre me animaram muito. Mas nada é suficiente enquanto não consigo preencher meus dias com um trabalho que eu diga: “me encontrei” .
Será que eu fiz algo errado? Será que eu quero demais? Será que sou incapaz? Porra, não é possível! Já tentei ser designer, redatora, comercial, produtora de eventos, coordenadora de conteúdo... já pensei em largar tudo pra fazer pedagogia, abrir uma sex shop só pra mulheres, e, mais recentemente, virar coolhunter. Percebi que amo fazer pesquisas de tendências, de comportamento... mas onde? Pra quem? Por quê?
Desculpem, tô escrevendo e desabafando. Desabafando e escrevendo. Um texto sem muito nexo, sem um caminho muito definido. Mas acho que a conclusão já é evidente: a gente não vai mais ficar em Barcelona. Vamos pegar o dinheiro que nos resta e viajar pela Europa. Tenho certeza que vai ser uma delícia. Mas e depois, quando eu voltar para o Brasil? Vou ser o quê?
Um PS, que é quase um segundo texto:
Por favor, não se preocupem. Eu sou exagerada, adoro um dramalhão. Mas logo mais escrevo feliz. É bem a minha cara estar triste num dia, feliz no outro... e hoje não tá fácil. É isso.
Ser estrangeiro não é a maravilha que sempre imaginei, e não só pra mim. Tenho falado com a Franci, e ela também tem suas dificuldades, que não são poucas. A Paulinha, que tá em Turin, comentou em um post abaixo que também sabe o que é sofrer longe de casa. As meninas que tão na Suíça deixaram bem claro: é legal, mas não é perfeito. O Doug tava preocupado no Natal. Ele tinha um objetivo bem claro de encontrar a galera, mas e depois, que motivação ia segurar ele no emprego do Mc Donald's?
Em resumo: quando a gente tá no Brasil, sonha que tudo vai mudar, que é só pisar em solo estrangeiro e ganhamos vida nova, empregos e amigos. Uma parte é verdade, eu nunca vivi tão boba com tudo ao redor. Mas, com cidadania ou não, a gente é brasileiro. E eles europeus. E ponto final.
E tenho que admitir também, eu tinha dois grandes objetivos quando pensava em vir pra cá: encontrar uma profissão e viver experiências. Se no primeiro por enquanto eu fracassei, no outro fui muito além do que imaginava. E garanto: com mais alguns meses viajando, não vão faltar informações e idéias novas. Os blogs vão bombar!


8 comentarios:
:)
è isso aì nina!!!! força e ànimo!!!! (nao ligue pros acentos que nao consigo colocar hehehe)
a gente na real ja sabia o tamanho da encrenca que tava se metendo e planejamos que pelo menos um ano tinhamos que poder nos sustentar sem muita esperança de ganhar. mas aì o que que ta acontecendo? exatamente isso tudo que vc escreveu! sempre me identifico muito com seus posts! mas nao vamos perder o ànimo!!! agora em 2009 as ideias estao fluindo que nem pipoca!!!! (heim?) tà, a gente viajou ate que bastantinho nesses ja 9 meses que estamos aqui, entao aì pode estar a chave da soluçao! (nao fumei maconha ta) mas viajei geral hauahuahauahua!!! grande! sempre em frente nina!!! uhuuul!!!! beijao!!!!
paulinha italy
gostei daquela ideia da sex shop so para as mulheres :)
isso parece assunto do nosso ex-clube das lulus ;)
paulinha
Bonita!!!!!!!!!!!
tomamos um vinhozinho juntas?????? e conversamos???
bem se ve o 21 de setembro nas tuas palavras
palavras que conheço
sentimentos que já vivi
força que continuo tendo...
nos vemos?
ePa 0pa, eu tambem nâo me encontrei, e s0u daquí, s0u o zero na minha esquerda .(
nâo sei se tem tanta gente que se vira, a crise afeta a todos e as permissôes e derivados sâo ƒoda de conseguir..., tenho √ários amigos nas areas criativas que perderam o emprego este ano e nâo acham nada..., eu acho que tem muita fumassa social no éxito estrangeiro, mesmo eu no brasiL curti um monte e mixei muito mas a grana ñ chegava nem perto do c0nsumo real...e sem gato, morando em casa de amigos...bla, bla, bla...
abraçada i ànims, ·J·
Pá Marina. Estar longe é realmente ruim! Mas devemos sempre nos lembrar o que nos trouxe até aqui! Claro que bateu uma depre pós férias em mim tb! Depois de 6 meses sozinho, reencontrar amigos e familiares -um pequeno pedaco do brasil no natal em berlim - e depois ve-los ir embora de novo, é duro! Voltar a fritar hamburguer 850 vezes por dia é uma merda, mas eu vim pra cá por um motivo, com um objetivo, fazer o curso de eng. de audio! E nao volto sem esse diploma na mao! Mesmo pensando as vezes que to perdendo tempo, q o curso nao ta bom, que talvez tivesse sido melhor permanecer com a minha vidinha no campeche e meu emprego no estúdio... Mas dessa vez nao arredo pé! Nao como das outras 386 vezes em que ja desisti antes de terminar! Dessa vez vou esperar o fim do filme pra dizer como acaba!
Achei bonito o que o Doug escreveu!
Eu sinto as dificuldades todos os dias: falta de sol (nunca pensei que fosse dizer isso!), excesso de afazeres do tipo "dona-de-casa" (limpar, lavar, cozinhar, passar, mesmo que aqui em casa mesmo!), a falta do homer (sonho com ele quase todos os dias), saudade dos cafés da tarde com as amigas, festinhas em Floripa, abraço de irmãos... cara, sinto falta do meu chuveiro, de comer carne, de uma máquina de lavar que funcione, do meu colchão sem molas, de uma casa que não cheire mal!
Só que... puts! Vim pra uma só pra uma coisa, assim como o Doug, fazer o curso e ponto, o resto é lucro! Pra mim é certo, não conseguiria voltar sem terminar, porque disso depende o rumo da minha vida daqui por diante. Depois de uma escolha bem errada na nutrição, esta tem que ser pra valer, estou convicta e isso me anima!
Deposito todas as minhas esperanças nesses 2 anos e é como se depois disso eu fosse encontrar o pote de ouro da felicidade depois do arco-íris, hehe!
Hey ho, let´s go!
noooosssa adorei os comentarios da galera (acho q nem conheço ninguem mas bele, heheh) todos parecem que eu poderia ter escrito.
mas nina, là no fundo eu queria que vc nao desistisse!!!! nao assim tao facil!! varias pessoas "imigradas" me disseram que o primeiro ano è geralmente o pior! a adaptacao demora, entender como tudo funciona demora e principalmente conhecer gente certa demora. e isso, assim como no brasil (infelizmente ou felizmente) è o importante!! nào desista nina! vc acabou de chegar!! poxa vida! :P
bom, de qq forma queria que vcs passassem por torino pra gente se encontrar. beijinhgos.
paulinha
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