

“Na Catalunha, os prazeres de uma boa cagada são comparáveis ao de uma boa refeição. Diz o ditado popular: 'menjar be i cagar fort, i no tingues por de la mort’ (‘comer bem e cagar forte, e não tenhas medo da morte’. A imagem das fezes guarda um caráter festivo desconhecido do resto da Europa. No Dia de Reis, em 6 de janeiro, as crianças que forem bem comportadas no ano anterior ganham deliciosas guloseimas; as desobedientes recebem caca i garbo, cocô e carvão, símbolo do inferno que as espera se não se comportarem direito. Hoje em dia não se usa mais o carvão, e o presente consiste em bolotas de cocô de marzipã marrom, feitas em confeitarias, algumas cuidadosamente enfeitadas com mosquinhas de algodão doce. E há o tio, um cruzamento entre a bûche de Nöel dos franceses e a piñata dos mexicanos. Com o formato de um tronco e madeira, o tio vem recheado de doces e miudezas, sendo confeccionado na maior animação na época do Natal; as crianças batem nele com varas, exclamando ‘Caga, tiet, caga!’, até se quebrar e expelir suas preciosidades.
Quem estiver em Barcelona um pouco antes do Natal deve ir até a Catedral e dar uma espiada nas barracas montadas na frente da fachada, que vendem figurinhas de presépio. São as de sempre: os pastores, os Reis Magos, Maria, o menino Jesus, os carneiros, as vaquinhas. Mas há uma totalmente anômala, que não se encontra em nenhuma parte da iconografia cristã. Com um gorro vermelho, a barretina, enterrado na cabeça, o homenzinho está de cócoras, com as calças arriadas, e de seu traseiro nu sai um pedacinho de cocô castanho, unindo-o à terra. Ele é o fecundador imemorial, que obedece ao apelo da natureza mesmo durante o advento do alimento recebido. Ele é conhecido como caganer (cagador), e existe em inúmeras versões: alguns têm os olhos saltados de tanta força que fazem, outros parecem enlevados numa serena meditação, mas a maioria não apresenta qualquer expressão; alguns, de papel machê, têm um metro de altura, outros, de argila, são minúsculos, como minipirâmides de bolotinhas de cocô que parecem de rato, e todos os tamanhos intermediários entre eles.
(...) Assim como alguns catalães colecionam caganers, sempre existiu um forte veio de humor escatológico nas cantigas e poemas populares, e na poesia culta da Catalunha.”


Tirei esse trecho de um livro recomendado pelo Fernando, meu psi. É a bíblia dele em Barcelona, e virou a minha. Fala sobre a cidade e a região da Catalunha, com especial atenção às manifestações artísticas, culturais e à arquitetura. Chama Barcelona, foi escrito por um crítico de arte australiano chamado Robert Hughes e encontrei por R$ 20 num sebo da internet. De vez em quando vou colocar citações dele.


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